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SOBRE A MÃE, HOMENS E MULHERES NADA SABEM
Vera Iaconelli

Reza a lenda que a mulher, sendo aquela que na divisão da tarefa reprodutiva fica com a parte visível e palpável, saberia algo sobre o mistério da nossa origem. Mito criado e mantido pelos sujeitos (tanto homens, quanto mulheres) com o intuito de aplacar a implacável angústia diante do “de onde viemos – para onde vamos?” ou, dito de outra forma, por que existimos e quando morreremos. Aquela da qual saímos, que engravida e pare, deveria saber sobre nós, afinal, através de seu corpo chegamos ao mundo.
E lá se vão os homens crendo que as mulheres sabem o mistério da existência, mas não contam por sacanagem, capricho ou reserva de mercado. Acusam-na, torturam em busca de respostas. (Neste quesito, sugiro a leitura, que antecipo ser quase insuportável, do Malleus Maleficarum, escrito em 1484 pelos inquisidores Kramer e Sprenger, no qual o método para fazer confessar as mulheres sobre suas “bruxarias” passa por uma averiguação obsessiva das partes íntimas de seus corpos.)
Ao se defrontar com a suposta recusa da mulher em responder ou mesmo com o reconhecimento de que ela não sabe, a reação dos homens vai do simples desprezo à franca destruição. Destruição que nos inclui a todos, homens e mulheres, cedo ou tarde, por ser um ódio a nossa própria condição de impossibilidade de saber sobre nossa origem. O filme iraniano do diretor Asghar Farhadi, O Apartamento, ainda em cartaz, começa com a evacuação de um prédio em risco de desabar como alusão a este abalo social generalizado, pois quando sobrepujamos metade da humanidade, todos perdemos.
Já do lado das mulheres, ocorre ódio semelhante, tão perceptível na autodepreciação de si mesmas, mas com diferentes desdobramentos. A mulher também acredita que sendo mulher, deveria saber. E sai a perguntar a sua própria mãe. Mas que decepção! Lacan diria, que devastação: nossa mãe, entendida aqui quase como uma entidade, nada sabe sobre a origem dos humanos. Nada que ela diga sobre o nascimento e o amor aos filhos resolve o mistério da existência. Então, talvez o pai saiba, pensa a filha! Mas dele só obtém a confirmação: a mulher/mãe sabe, mas não abre!
Na derradeira cartada, a mulher imagina que, ao torna-se mãe, ela saberá sobre ser mãe, sobrepujando a própria mãe. Esta tentativa de saída do dilema está sujeita a grandes doses de culpa e medo de retaliação, nosso dia-a-dia na clínica. E a coisa complica porque ela se depara com esta impossibilidade de responder o inominável a partir da experiência corporal. Sim, eventualmente gestamos, parimos e amamentamos e sim, grande know-how se adquire depois de considerável sofrimento e prática. Mas, triste decepção, nossa origem ainda não está aí. Também sabemos que a experiência da mulher é muito diferente da experiência do homem no que tange ao ciclo gravídico-puerperal. Mas se tem uma coisa que a psicanálise nos ensina e a clínica exemplifica é que a experiência para humanos é sempre atravessada pela linguagem, ou seja, que não temos acesso a realidade do vivido que não seja apenas nossa versão singular. Isto equivale a dizer que sempre teremos narrações do ocorrido, tentativas de dar contorno a algo que nos escapa. Basta pensar na tentativa de dizer sobre o amor, experiência que supomos ser compartilhada por todos os humanos. Se tivéssemos a palavra final sobre o que é o amor, não haveria necessidade de Chico Buarque, de Clarice Lispector. Então, resta toda a arte, a ciência e a religião como consolo por não podermos completar de forma definitiva a frase amar é.
O problema é que é muito difícil sustentar que o mais importante conhecimento para o sujeito humano nos escapa estruturalmente. Que sobre nossa origem só poderemos descrever fatos do organismo, seus tecidos e funcionamentos. Nada da origem e finitude do sujeito será tocado por este conhecido porque, enquanto sujeitos restritos ao campo da linguagem só nos resta falar infinitamente sem nunca alcançar nossa própria experiência. A rigor, as pessoas nascidas fêmeas nada sabem sobre ser mulher, tampouco ser mãe por alguma pretensa condição advinda do organismo. Aprende-se observando e experimentando e, em sua maior parte, inconscientemente. E ainda assim, trata-se de aprender algo criado por humanos, não sobre um pretenso saber da natureza.
Mas reza a lenda, e a psicologia por vezes põe lenha na fogueira que nos queima a todos, que as mulheres teriam este sexto sentido para se a ver com os filhos, que teriam um conhecimento atávico da maternidade, que o ódio materno é dificuldade de se identificar com e feminilidade e outros exemplos de pura misoginia que não valem a pena gastar tinta com.
E, enquanto as mulheres supõem que deveriam saber algo a mais do que os homens e ter acesso aos mistérios da vida, sua experiência como mães pode se tornar um terrível fardo (para além do fardo habitual), pois elas se supõem incapazes e desnaturadas em comparação, claro, com as outras mulheres que elas supõem que sabem algo. Além disso, achando-se únicas e insubstituíveis acabam por afastar outros que poderiam se ocupar dos filhos, por serem sempre um arremedo da grande mãe. Verdadeira armadilha social e pessoal para mulheres que oscilam entre a onipotência de serem insubstituíveis e a impotência de sustentar a sobrecarga desta falsa expectativa.
Depois de tantas suposições atribuídas uns aos outros, resta perguntar: o que sabemos, afinal, sobre nossa origem? Que com sorte alguém, seja homem ou mulher, nos desejou em tempo hábil (que pode ser depois do nascimento) e o suficiente para que se ocupasse exaustivamente de nós; que nos transmitiu os ditames da cultura, mas também uma carga inconsciente de conflitos e paixões (incontornável e que nos faz humanos); que tivemos os recursos mínimos (no mínimo, tendo massa encefálica, como nos alertava Winniccott) para fazer algo com isso e que nos tornou sujeitos.
Fora isso, estamos no plano do organismo, de machos e fêmeas, que embora seja condição de nossa existência física e psíquica, não é garantia e tampouco responde sobre o surgimento do sujeito humano. Sobre cuidar de filhos, com sorte e insistência, aprendemos.

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