Se a sua família é fora do combinado…
A mãe desnaturada comum
9 de janeiro de 2015
Prefácio para o livro “Mãe em construção” de Isabel Coutinho (Dash Editora, 2016)
10 de maio de 2016
Casais de pessoas do mesmo sexo têm conquistado a legalização de suas uniões em vários países. Esta possibilidade não vem acompanhada, no entanto, no direito que configura legalmente uma família: ter filhos. O parentesco fruto da adoção ou da tecnologia reprodutiva não é considerado legítimo para estes casais. É terrível imaginar a ameaça de perda do filho que paira sobre estes pais diante de alguma batalha judicial, por exemplo. Como no caso da cantora Cássia Eller, cuja morte precoce revelou a precariedade legal da relação do filho com sua companheira Eugênia: mãe de fato, mas não de direito.
A dificuldade de aceitar este tipo de parentesco é justificada pelo argumento de que se está pensando no bem da criança. Pois bem, definamos então as condições que pais precisam cumprir para cuidar de um bebê. Esqueça tipo de parto, aleitamento, dormir junto ou separado ou qualquer quesito da puericultura ou da pedagogia. Estas escolhas contingenciais mudam ao sabor dos ventos capitalistas, modas consumistas e são praticamente irrelevantes no que se trata de definir aqui.
Em termos psíquicos e emocionais uma criança deve ser criada por adultos que desempenhem funções a que se convencionou chamar materna e paterna (aliás, função materna e função paterna são termos altamente reveladores da ideologia que os engendra, indissociáveis das figuras de mãe e pai e seus correlatos, mulher e homem).
Essas funções, que preferimos chamar de parentais, são inegociáveis e se referem a promover a constituição psíquica do sujeito e sua pertença social. E do se trata isso?
Um bebê precisa ser criado por um adulto que o trate como semelhante, quer dizer, que o considere gente antes dele ser de fato. Dito de outra forma, quando o bebê recém-nascido se esperneia por motivos neurológicos insondáveis, os pais interpretam o gesto como: vai ser jogador de futebol, está com ciúmes, quer a mamãe… eles supõe motivações subjetivas antes destas serem plausíveis. É uma ilusão, mas é uma excelente ilusão. Diria mesmo, é uma ilusão imprescindível.
Em seguida, este bebê inventado, delirado pelos pais vai se descobrindo e se diferenciando, descobrindo a alteridade em si e no outro. Os pais devem ser capazes de reconhecer a singularidade deste novo sujeito, ao mesmo tempo em continuam a interpretar seus supostos desejos (Violência da Interpretação de Piera Aulagnier: constituinte e necessária na medida certa, desastrosa, quando ultrapassa estes primórdios).
Você tem certeza de que ele está com frio, mas é melhor se render ao suor escorrendo. Mais pra frente, você tem certeza de que ele seria um ótimo engenheiro, mas sorry, ele odeia matemática. Este processo, que tem suas bases fincadas no primeiro e segundo ano de vida do bebê, supõe que os pais o reconheçam como um outro sujeito desejante, diferente deles. É um jogo duplo de supor saber o que o bebê deseja, mas deixar uma margem para se surpreender com o estranho que ele é.
A descoberta da diferença sexual é um motor fundamental da descoberta da alteridade apontado por Freud, pois temos dois gêneros, dois sexos. Mas o que pode ser a alegoria da alteridade dada por esta descoberta, passa a ser um fato em si, numa flagrante dificuldade de fazer valer até as últimas consequências os pressupostos da psicanálise no que tange a esta questão: há que se presenciar o corpo de homem e o corpo de mulher para se reconhecer a alteridade?
Esta é uma interpretação caricatural e simplista e que, acima de tudo, não dá conta do fato de que crianças normais, felizes e bem constituídas têm sido geradas por famílias de duas mulheres ou de homens ou um de cada. Não podemos nos esquecer que o pai da psicanálise também nos ensinou que a clínica é soberana.
Mas estas famílias estão fora do combinado, pois afinal, trata-se justamente disto, de um certo combinado. E aí entra a segunda questão: a pertença social.
A família é uma espécie de tradutor da sociedade. Ela amortece o mundo para a criança e apresenta a criança para o mundo em doses homeopáticas. Os pais ensinam a língua que não é só deles, mas de todos os membros daquele grupo social. A criança, por sua vez, herda a colocação social da família. Se a família for valorizada, sorte de seus membros herdeiros de Caras, mas se ela for considerada esquisita ou anômala esta mesma sociedade que visava o bem da criança, acaba por condená-la também. Ao final, não reconhecendo seu próprio gesto de exclusão e preconceito, diagnosticará a criança como criança-problema. Aliás, alguém se lembra da antiga sentença: filho de pais separados, criança-problema?
Outros argumentos contrários a este tipo de adoção revelam vários outros equívocos interpretativos: a suposição de que o desejo homossexual é patológico e de que sujeitos transgêneros ou travestis não estariam aptos a exercer estas funções também se baseia na patologização do desejo. Haveria o desejo heterossexual normal e suas deturpações patológicas. Favor não confundir o desejo não convencional com as patologias nas quais o sujeito não considera o outro como sujeito, mas como coisa, como objeto. A heterossexualidade nunca foi vacina contra as psicopatias.

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