Rapunzel e sua torre: considerações a respeito da psicose puerperal
Primeira Infância e Maternidade nas ruas de São Paulo
22 de abril de 2018

Rapunzel e sua torre: considerações a respeito da psicose puerperal.

Arianne Angelelli [1]

 

Entre a psicose e a normalidade existem mais conexões do que gostaríamos de acreditar; o estranho da psicose nos assusta justamente por sua ressonância em nós mesmos. Diz Nino Ferro “Naturalmente, é com os pacientes graves (e com as partes psicóticas de cada paciente) que continuamente nos expomos às maiores dificuldades… à espera de poder transitar por zonas ainda escuras e cegas da nossa mente”. Como então distanciar-se do terror da psicose puerperal e dos transtornos mais graves que podem ocorrer no período perinatal- se um dia já fomos também bebês em estado de dependência absoluta, se a rejeição ao bebê não nos provoca empatia, se o próprio feminino em nossa cultura não nos fornece referência suficiente? Vivemos numa cultura do matricídio, em que as coisas inanimadas prevalecem sobre o humano, e a relação mais primeira, da mãe com seu bebê, é idealizada ou reificada, mas não encontra a proteção ambiental necessária ao seu sustento. “É preciso de uma tribo para cuidar de um bebê”, diz o ditado. Esta verdade parece ter sido esquecida nos nossos dias.

Sucumbem os indivíduos mais frágeis diante das pressões e da instabilidade característica da fase perinatal. Instabilidade esta que é orgânica, dadas as intensas flutuações hormonais, à privação do sono, às vicissitudes do corpo e seu Real, tão presentes no momento. Mas também psíquica; também social também familiar. Para a psiquiatria, a conexão entre psicose puerperal e transtorno bipolar faz-se evidente, delimitando um fator de risco dos mais importantes. Porém, para o analista, a desconstrução do rótulo e a busca de um sentido para o sujeito importam mais. No contato com a paciente o terapeuta tenta prosseguir na construção de um “historiar” e um acolhimento para o delírio: composição e remendo criado pela pessoa para dar significado às suas vivências.  A aliança terapêutica é um holding que vai possibilitar o outro holding, o holding do bebê, impossível nos estágios iniciais de desorganização em que a paciente se encontra. Aqui importa menos o reencontro da mãe e do bebê do que a possibilidade de a mãe re-significar a si mesma, aprisionada que está dentro da torre da psicose.

 

Delírios envolvendo o roubo ou a troca do bebê são muito comuns na psicose puerperal. Podem estar muito estruturados (como vimos no filme “O bebê de Rosemary” de Polanski) ou, no mais das vezes, conectados a um estado paranóide difuso, ligado a grandes flutuações do humor. O que aparece nestes delírios surge como fantasia inconsciente no estado de blues puerperal, período de transparência psíquica em que ciúmes e conflitos surgem como uma forma camuflada do temor de não poder ser mãe, de ter seu bebê sequestrado pela sogra, pela enfermeira perversa, ou pela própria mãe. Ansiedades que o ambiente continente e a passagem do tempo, o descanso e o próprio contato com o bebê fazem diluir paulatinamente. Na psicose, o terror é vivido na realidade- não é bonita a psicose, nem fácil de suportar. Os casos puerperais costumam ser muito graves. Mas, apesar de pertencerem ao sitio do estranho, não deixam de ser familiares, de ressoar profundamente em nós. Quando eclode o surto, muitas vezes ainda no período da internação, intensas angústias mobilizam toda a equipe do hospital, que em geral está despreparada para isso. Às vezes a visão médica domina a cena, o que rouba à mulher a oportunidade de encontrar a partir da crise um caminho para a subjetivação, e à família a possibilidade de uma escuta. É quando iatrogenias ocorrem porque o sujeito psicótico deixa de ser considerado um sujeito, mesmo que a desorganização ocorra de forma autolimitada, mesmo nos casos de resolução mais rápida da crise. A equipe hospitalar raramente tem condições de manejar casos de tanta complexidade. Apesar de não ser infecciosa, a loucura “pega”, e pega de um jeito que muitas vezes não se percebe. Porém, somente uma atitude cuidadosa e não julgadora tem chance de atingir paciente e família neste momento. Há que se encontrar uma dialética neste cuidado: enquanto, de um lado, o psiquiatra busca a melhor medicação e ajusta à conduta clínica, o manejo da enfermagem é de particular importância, pois as famílias se desestruturam e a paciente fica muito regredida. Enquanto o antipsicótico age para reduzir as manifestações delirantes e a desorganização, no contato com a paciente o terapeuta prossegue fornecendo uma escuta diferenciada. Sem contar a particularidade da vinda do bebê: quem vai se ocupar dele? Tamanha é a complexidade do manejo nos casos de psicose puerperal.

 

No conto de fadas que narra a história da Rapunzel, a apropriação pela mulher de algo que pertence à bruxa faz com que ela retorne quando nasce sua primeira filha. A bruxa vem se apossar da menina e prende-la numa torre. Não existe neste momento a mediação paterna; é o pai quem ajuda a mãe a roubar a bruxa; e o sequestro não ocorre sem o seu conhecimento, porém é aceito, como um destino contra o qual não se pode lutar. No drama edípico dos homens e das mulheres, o amor e a rivalidade se misturam. Para as mulheres, a questão da castração e da diferenciação com a própria mãe, seu primeiro objeto amoroso, dá-se de forma diferente. Perder sua capacidade de gerar, ter seus órgãos internos danificados ou ter de render-se ao poder materno, sem mediação ou limites, é um dos destinos possíveis da menina. Ao ser mãe a menina se defronta com os dilemas que enfrentou no inicio da sua vida, ao se desenvolver no sentido da diferenciação da própria mãe. No puerpério volta a estar dependente, depara-se com o bebê, busca dentro de si uma referência, deseja contar com sua mãe. Mas muitas mulheres permanecem a vida toda confinadas dentro da torre da bruxa, como a Rapunzel, e a maternidade lhes chega como uma injunção; desorganizadora, impossível. Aqui podem surgir ideias obsessivas ou delírios sobre a filiação do bebê; fantasias de roubo ou sequestro, levando a belicosidade, comportamento paranóide ou francos delírios; e talvez o mergulho na melancolia, quando esta agressividade se volta para dentro. Será que este bebê é meu? É esta pergunta que somos chamados a ajudar a responder no trabalho terapêutico com estas mulheres.

 

[1] Psiquiatra, especialista em psiquiatria infantil e da adolescência pelo HC-FM-USP, docente do Instituto Gerar, colaboradora do Pro Mulher: Ambulatório de transtornos psiquiátricos ligados ao ciclo reprodutivo feminino do IPQ-USP.

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