Prefácio para o livro “Mãe em construção” de Isabel Coutinho (Dash Editora, 2016)
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O termo “perfeito(a)”, segundo o dicionário de etimologia, vem do Latim perfectus que significa completo, particípio passado de perficere, acabar, terminar, completar. Isabel Coutinho localiza o risco de usarmos este adjetivo para as mães, risco que ela denuncia em cada um de seus textos: que a obra das mães, quais sejam, seus filhos, se suponha completa e acabada.
Façamos uma conta simples. Com as gravidezes tardias, por volta dos trinta anos, e o aumento da longevidade, pode-se esperar entre trinta a cinquenta anos de orfandade de nossos filhos. Desta forma, sendo os filhos uma obra que termina depois de nós, fica impossível associar qualquer completude a esta tarefa. Este reconhecimento, de que não estaremos aqui para ver o desfecho da maternidade e da paternidade nos obrigada a dar espaço para que os filhos possam ir se havendo com nossa própria ausência, e mais, criar filhos para um mundo que desconhecemos totalmente, o que provavelmente torna nossos ensinamentos anacrônicos já de saída. Quando a autora enfatiza o desserviço dos manuais para pais, de forma despretenciosa e confessional, nos aponta para nosso limite diante do inexorável da existência e dos riscos de se supor dono de qualquer saber definitivo.
Você ensinou sua filha a agir como uma linda menina bem comportada e seu filho a se comportar como um menino forte e destemido? Desculpe, mas não sabemos se os gêneros continuarão operando daqui a trinta anos dentro do binarismo homem, mulher. Ensinou-o a escrever? Pois é, qual será de fato a forma de registro daqui algumas décadas? Caligrafia não parece a melhor aposta. Enfim, que tarefa é essa, imperfeita, incompleta e anacrônica que exercemos insistentemente junto aos nossos filhos? Devemos desistir de buscar sermos pais razoáveis? Cairemos sob o peso de nossa imperfeição, impotentes?
Não é esta aposta da autora, cujo entusiasmo a cada página nos contagia.
Para além dos manuais de como se deve agir e de como se deve ser junto aos filhos, para além da negligência junto aos desafios que a contemporaneidade nos apresenta, a aposta da autora parece ser numa combinação entre a reflexão pessoal sobre os desafios da atualidade, a reflexão coletiva feita no laço social (que a própria existência do livro testemunha), um investimento afetivo abnegado nestas criaturas que provavelmente só reconhecerão toda amplitude de nossa dedicação, quando não estivermos mais aqui, e a possibilidade de aguentarmos que só daremos uma parte, nunca tudo. Porque não temos como lhes dar tudo, assim como nossos pais também não tinham. Se pudermos nos perdoar, pela dimensão demasiadamente humana desta condição, talvez nossos filhos também se perdoem. E, ao se perdoarem por serem imperfeitos, possam viver bem a vida, como no fundo, e acima de tudo, desejamos que façam.
Porque se os pais se propõem a darem tudo para os filhos, só resta ao filho dar tudo para os pais, ou fugir deles para escapar desta sina. Se abrimos espaço para nossa vida, espaço que não deve ser compartilhado com eles, criamos as condições de que façam o mesmo e tenham uma vida própria, para além de nós. Afinal não estaremos aqui para sempre.
Parabéns Isabel Coutinho, pela sua empreitada, criando um espaço de diálogo e reflexão com pais, que como nós, continuam insistindo em ser o que é possível, de forma potente e investida.
Vera Iaconelli

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