Há possibilidade de uma outra lógica dentro da maternidade?
Mãe é a nossa, os filhos somos nós
14 de dezembro de 2014
As denúncias sobre os maus tratos a que estão submetidas as parturientes são uma constante nas redes sociais, na mídia e mais recentemente em audiências públicas sobre o tema.

Alguém ainda duvida de que temos uma realidade a ser modificada no que tange aos cuidados oferecidos no parto? Bom, partindo do reconhecimento deste fato, cabe pensar formas de intervenção para além da crítica a que chamarei de crítica tiro pra todo lado, aquele na qual se aponta uma massa de erros/errados que nos deixa com a sensação de que só uma bomba poderia resolver tudo.

Uma espécie de crítica que divide o mundo em bons e maus e que faz supor que quem faz a crítica estaria do lado dos bons, óbvio.

Como não sou boa com artefatos e explosivos e suspeito que os maus cuidados oferecidos às parturientes respondem a uma lógica que precisa ser desvelada, opto por contribuir na reflexão.

A primeira questão refere-se ao fato de que em uma instituição de saúde, do porteiro ao cirurgião, passando pelo ascensorista, enfermeiros, pessoal da limpeza a lógica que rege é empresarial e, portanto, visando acima de tudo lucro.

Como bem nos aponta Davis-Floyd (2001), o hospital é a fábrica, a parturiente é a máquina e o bebê é o produto. Mas o que se esquece de apontar é que o profissional que trabalha na empresa que comercializa a saúde é, acima de tudo, um operário, não importando em que nível ele atua.

Do chão de fábrica à diretoria, a lógica a que todos estão submetidos é da produtividade, da ameaça de processos judiciais, da hierarquia militar (herança da formação do médico que, como se sabe, obedece aos preceitos militares e cujos efeitos podemos ver na violência ritual de seus trotes).

O sujeito que opera nestas instituições está submetido à mesma lógica do usuário, qual seja, a lógica da dessubjetivação. Dizer que médicos e enfermeiras são insensíveis e cruéis ou endemonizar o hospital x ou y é uma forma conhecida de criar um inimigo comum e nos colocar do lado dos bons e puros.

A lógica a que estamos submetidos, denunciada por Clavreul (1983) eliminou há tempos a ideia de relação médico-paciente como foco da dessubjetivação. Para este autor, não existiria mais uma relação nos moldes sujeito a sujeito.

Hoje se trata de uma relação ciência-doença, intermediada por profissionais, eles mesmos desvalorizados diante da tecnologia e das aspirações sobre humanas do biopoder. O próprio médico, ora alçado a condição onipotente, ora impotente (entre Deus e o Diabo), não é reconhecido e passa a não se reconhecer como humano e, portanto falível, nem como sujeito a angústias diante da morte/da vida e do fato de lidar com a cruel materialidade dos corpos.

Se vamos trabalhar por uma mudança na realidade destes procedimentos, temos que ter em mente duas frentes que entendo serem, uma de curto prazo, e outra de longo prazo. Uma na qual se busca ajudar a parturiente hoje, que está dando a luz neste exato momento oferecendo alguns recursos que sabidamente diminuem os riscos de protocolos equivocados e/ou franca violência. Neste caso o acompanhante de parto, seja familiar, seja treinado, aparece como um dos recursos imediatos.

Estudos mostram que a simples presença de uma testemunha fora do âmbito do hospital pode fazer a diferença para inibir certas situações, embora não garanta. È claro que esta presença, do acompanhante de parto, deve ser introduzida dentro de outra lógica, ou seja, se o acompanhante compactua com a visão empresarial ou se ele mesmo se encontra dessensibilizado pela sua própria experiência em ser mal cuidado, sua presença não será tão eficiente. Mas fica mais difícil acreditar que alguém diga para a parturiente que está chorando e gritando de dor que _Na hora de fazer o filho, ela não reclamou, caso o marido ou sua mãe esteja presente. Esperamos…

Outra frente, com objetivos a médio e longo prazo, é aquela na qual um trabalho educativo e de sensibilização, no sentido contrário ao oferecido nos cursos de medicina, possa ser oferecido a estes profissionais. Nesta outra lógica da formação, busca-se envolver a subjetividade, dando outro destino para as angústias de se trabalhar com corpos, com a vida e com a morte. Angústias, que não encontrando espaço de acolhimento, tendem a se atualizar em violência e negligências.

Uma vinheta: uma acompanhante de parto voluntária, ao presenciar um atendimento delicado e atencioso de um jovem médico em uma maternidade pública, comenta com ele sua satisfação de presenciar esta qualidade rara na instituição. Ao que o médico responde quão raro é pra ele ouvir que alguém note e elogie o que ele faz.
Todos precisam ser vistos como sujeitos. Alguém duvida que os médicos também?!

Vera Iaconelli

1 Comentário

  1. felipe disse:

    oi gente
    gostei muito desse site, parabéns pelo trabalho. 😉

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