Mãe é a nossa, os filhos somos nós
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Se a sua família é fora do combinado…
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Culturas estáveis (anteriormente denominadas primitivas) são assim chamadas pois prezam a tradição e a permanência dos costumes. Uma cultura é dita estável em oposição a nossa cultura que almeja a constante mudança, o novo.
No que tange às mulheres, as consequências destas diferentes formas de pensar a cultura são radicais: da abolição do ritual para extirpação do clitoris até o fim dos casamentos arranjados entre homens adultos e meninas de 9, 10 anos, passando pelo direito ao voto e a escolha profissional, a mulher se beneficiou diretamente da mentalidade ocidental que busca o novo.
O reconhecimento desta brutal diferença do lugar da mulher nas diferentes sociedades não me impede de continuar admirando a relação das mulheres das tribos estáveis com a gestação, com o parto, com o aleitamento e com os cuidados com os bebês.
Quando adolescente, encantava-me a figura da mãe índia e suas competências. Saber que elas são capazes de reconhecer e estimular os movimentos peristálticos do bebê, evitando que ele se suje, sem o uso das fraldas, ou que a índia brasileira é capaz de ter 14 filhos sem perder o tônus do períneo, que a mulher ocidental costuma perder mesmo fazendo cesariana, sempre me impressionou. Mas, infelizmente, estas informações costumam ser “importadas” para a discussão sobre a maternidade num tom nostálgico, idealizado de aspiração de retorno à natureza. Interpretar estas competências como sendo da Mãe Natureza, da Mãe Natural, cujos instintos dariam conta de tudo, tem seus efeitos nefastos sobre a mulher ocidental. Deixemos claro: não existe instinto que dê conta da parentalidade humana.
A transmissão geracional é condição inegociável para que os pais saibam como cuidar dos seus filhos e cada cultura irá transmitir seus próprios valores, sejam quais forem. Infelizmente, até mesmo a psicanálise dá munição pra esta interpretação romanceada, de que a mãe surge simplesmente porque teve um bebê, de forma espontânea (sabemos a que ponto a teoria do psicanalista Winnicott foi manipulada nesta tacanha argumentação).
Falando sério: os humanos são cuidados por outros humanos e, a partir desta experiência e de suas próprias competências, aprendem a cuidar de outros seres humanos e assim sucessivamente. As formas do cuidar variam de cultura para cultura, de época para época. Ter cuidado de bebês desde a própria infância é uma das marcas das culturas estáveis. As crianças presenciam os partos, as formas de alimentar, carregar, limpar, colocar para dormir. Estas formas devem ser reproduzidas à geração seguinte com o mínimo de variação.
Na nossa cultura, não temos acesso a nada disso, sendo o nosso bebê o primeiro a termos contato, muitas vezes. Além disso, não temos consenso quanto a melhor maneira de alimentar, limpar, por pra dormir… Daí decorre a falsa percepção de muitas mães de bebê de que suas dificuldades de cuidar de seu bebê decorrem de serem mães desnaturadas. Elas não entendem porque não sabem, não gostam e muitas vezes não querem esta tarefa que supostamente deveriam adorar: cuidar de um bebê!
A mãe índia não tem nem a possibilidade de formular a questão se quer ou não um filho (algumas mulheres ocidentais também não!). Isso simplesmente não faz parte do imaginário deste grupo (sugiro a leitura de François Héritier, 1996, sobre as sanções a que estão submetidas as mulheres inférteis nestes grupos.) Em decorrência disso, muitas mães ocidentais desenvolvem verdadeiras fobias a seus bebês, a quem enxergam como a prova de seu fracasso. Delegam os cuidados aos profissionais da área, pois se acham incapazes de fazê-lo. Sabemos da legião de profissionais disponíveis para substituí-las.  Por vezes tão bem sucedidas na profissão, vida social ou amorosa se vêem insignificantes ao lado do bebê e fogem dele o quanto podem, se dedicando ainda mais à profissão, à vida social, amorosa ou ainda desenvolvendo sintomas incapacitantes (uma saída honrosa para uma terrível sensação de culpa).
Esse efeito nefasto da idealização das maternidades enche a clínica psicanalítica, num claro sintoma do sujeito referido a uma patologia social. Ser mãe pode ser muito gratificante se este papel não estiver soterrado por expectativas equivocadas, idealizações e ignorância.
Vera Iaconelli

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