Há possibilidade de uma outra lógica dentro da maternidade?
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A mãe desnaturada comum
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Em palestra bem humorada em um programa chamado TED Talks, o casal Rufus Griscom e Alisa Volkman surpreende-se com o fato de que abordar temas relativos ao sexo em seu antigo site tivesse sido mais fácil de que apontar as agruras da paternidade/maternidade em seu novo site. Verdadeiro tabu, falar o que sentimos sobre os filhos tornou-se penoso, enquanto que exibir, declarar, escarafunchar o sexo é um imperativo da atualidade, como nos apontou Foucault.
Vê-se que a questão da ambivalência amorosa na parentalidade é bem mais delicada. Basta uma olhada relâmpago nas redes sociais para testemunharmos as infinitas declarações de amor aos filhos numa franca demonstração de nossas idealizações. É bom lembrar que até o início do séc XIX era considerado vulgaridade elogiar a própria prole, devido ao auto-elogio implícito.
Nunca idealizamos tanto nossos bebês, nunca nos deparamos com tamanha persecutoriedade sobre seus destinos. Se nossas crianças precisam ser protegidas o tempo todo, do que seria, afinal?
Um caso descrito por Miriam Debieux, – professora da USP e PUC-SP, psicanalista que estuda e atende sujeitos em situação de exclusão social – em aula recém ministrada pode ilustrar nosso tema: num abrigo que acolhe sujeitos de diferentes nacionalidades em situação de risco, surge um desconforto em relação às mães de origem africana consideradas pelos demais como sendo negligentes com seus bebês, pois os deixavam “soltos”, sem supervisioná-los, para escândalo das mães latinas. Em conversa com as mães africanas constatou-se que estas, por sua vez, não entendiam porque o adulto que está fisicamente próximo da criança não cuidaria dela como se fosse sua. Ou seja, em seu imaginário social de coletividade, o adulto para estas mães era um cuidador em potencial, digno de confiança e responsável à priori. Trata-se da compreensão da parentalidade como de responsabilidade coletiva.
Já a mãe a latina, tão pessoalmente zelosa de seu bebê, considera que o adulto que não for parente direto da criança é um abusador ou negligente potencial. Nesta lógica, até mesmo pais/mães estão sob suspeita.
Sabemos que a forma que as mães latinas cuidam dos bebês nos representa e revela nossa cultura paranóica no cuidar das crianças. O excepcional filme dinamarquês A Caça (2012) de Thomas Vinterberg nos fala disso. Exemplos dos efeitos catastróficos desta paranóia não faltam (do desastroso caso da Escola Base de 1994 aos sites que “denunciam as falsas denúncias de abuso infantil”. Que confusão!).
O fato é que as nossas crianças encontram-se sob risco mesmo, para além dos propagados sequestros e violências.
O subestimado risco que qualquer idealização encerra, qual seja, o de esconder para debaixo do tapetinho tudo que diga respeito ao ódio. Ódio que retorna nos noticiários com imagens de maus tratos e negligências que estas crianças sofrem.
Nunca se idealizou tanto a maternidade e provavelmente nunca sofreu-se tanto ao exercê-la. Tema recorrente em palestras e artigos, a dificuldade de se falar sério sobre a relação com os filhos esbarra em algumas questões. É ingenuidade imaginar que se trate apenas de falta de informação e que bastaria falar para os pais que não existe amor livre de ambivalência. Mas do se trataria esta insistente idealização, tão nefasta quanto irreal?
Escolho hoje uma das facetas que explica este fenômeno: toda mãe é a nossa, todo bebê somos nós, ou seja, quando uma mãe se mostra simplesmente uma mulher, tendemos a julgá-la impiedosamente como julgamos nossas mães, que a nossos olhos nunca foram ou serão mulheres, apenas mães. Quando um bebê sofre, e desculpe a vida não é fácil nem mesmo para um bebê recém nascido, ok?, imaginamos nosso próprio sofrimento enquanto bebês, intrinsecamente desamparados pois dependentes da boa vontade do adulto.
Em nossa aspiração narcisista, alimentamos de tal forma a fantasia de ter sido bebê maravilhoso dos nossos pais (sua majestade, o bebê, como Freud batizou), que fica difícil lidar com a dura realidade da nossa simples existência. Assim como a pinça frouxa que tenta em vão capturar o boneco de pelúcia empoeirado de dentro da caixa de vidro no parquinho de diversões, em nossa vã fantasia os pais seriam içados a uma certa categoria superior à humana, assim que concebessem. Insistimos na fantasia de que pais deveriam ser pessoas elevadas de sua insignificante existência humana à condição de deuses, porque deuses geram bebês deuses, nós!
Triste notícia, difícil de lidar, para além de toda informação: nossa origem é pífia. Nossos pais são seres humanos quaisquer e a parentalidade não os eleva a uma condição humana superior. Por consequência, tampouco somos grande coisa, desde a origem. Apenas humanos. E se você gosta suficientemente de humanos, isto deveria bastar. Essa é uma informação difícil de assimilar.
Vera Iaconelli

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