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O COMEÇO DA VIDA
VERA IACONELLI
Em meados de 2015, recebo uma mensagem de uma integrante da equipe de filmagem do documentário O Começo da Vida contando que fazia locações para o filme e que havia presenciado uma cena inominável naquele dia. Ao longo da conversa percebi que se tratava mesmo da marca do traumático da experiência em sua impossibilidade de ser nomeado. A equipe estava na África (mas poderia estar em qualquer comunidade a nossa volta) e se deparava com pobreza e precariedade incomunicáveis. Ela me dizia que acabava de entrevistar uma cuidadora de crianças de uma ONG e que esta relatava que, naquele mesmo dia em que a estavam entrevistando, só havia água no café da manhã da dezena de bebês e crianças sobre seus cuidados (órfãos de pais que na maioria haviam morrido de AIDS). E finalizava agradecendo a Deus que, afinal, ao menos havia água! Para esta jovem da classe média paulistana, voltar para a infraestrutura do hotel com seu café da manhã de exageros e sobras tornara-se surreal. Em seguida ela me dizia que agora entendia porque a negligência com a primeiríssima infância não podia ser pensada como um fato reduzido à mãe. Ideia que pairava sobre a equipe antes do trabalho com o documentário começar e sobre a qual conversamos durante as filmagens. Podemos imaginar que fossem ingênuos, afinal não são pesquisadores da área. Antes fosse! Vemos com frequência alarmante como esta negação opera mesmo na teoria psicanalítica. Supor a relação mãe bebê como eixo único da constituição subjetiva e do cuidado com o infans não deixa de ter efeitos nefastos para todos.
Não há sujeito que dê conta de outro sem as condições mínimas de sua própria sobrevivência, sejam da ordem da necessidade, sejam da ordem da dignidade dos laços sociais de onde emergem seres humanos. Ignorar o papel dos laços sociais na constituição de uma mãe/pai e de um bebê implica, entre outras coisas, em: superestimar o lugar da mãe tanto no sucesso quanto no fracasso desta empreitada; moralizar as relações entre pais e filhos a partir de modelos heteronormativos, ignorando as diferentes combinações possíveis de cuidados (instituições e novas famílias); desobrigar as políticas públicas de serem implementadas, desonerando o Estado de seu papel, uma vez que caberia apenas aos pais mas, principalmente à mulher, a incumbência de fazê-lo; legitimar violências de classe, gênero e raça a partir dos julgamentos sociais quanto ao papel parental.
Recentemente, no bairro de Higienópolis, uma empregada doméstica, que morava no emprego junto com sua filha pequena, grávida de uma relação episódica, paria em segredo, sem assistência, e deixava o bebê na rua para ser levado por alguém, com medo de perder o emprego e a moradia. Não estamos na África da cena anterior, mas estamos num país onde o aborto é ilegal, perigoso e moralmente condenado, onde uma mulher não tem chance de ter sua escolha de entrega em adoção considerada com dignidade e o risco de perda de emprego equivale a uma sentença de penúria social. Tendo sido flagrada esperando que a criança fosse devidamente acolhida, a primeira pergunta que se faz sobre sua atitude é se ela seria louca ou má. Sobre uma possível patologia dela nada sabemos, mas da patologia social exemplar que o caso revela sim!
O Começo da Vida é um documentário que usa de um artifício insidioso. Encantados com as incríveis cenas e falas das crianças, envolvidos pela música adorável e atentos aos saberes de pais e pesquisadores, somos pegos de surpresa por cenas que nos obrigam a reconhecer algo que até a psicanálise por vezes esquece: antes e depois de uma mãe e seu bebê, há o mundo. A reprodução humana é reprodução do tecido social e seus laços. Não há como pensar a relação da mulher e seu bebê, sempre idealizada e superestimada, sem pensar as condições de sua emergência. Não apenas as condições subjetivas da mulher que tem o bebê, mas as condições para que o bebê venha a ser filho, neto, irmão, primo, vizinho, cidadão…
O documentário foi filmado no Brasil, China, França, Itália, Argentina, Estados Unidos, Quênia, Índia e Canadá, sendo dublado em seis línguas e legendado em vinte e um idiomas. É fruto da direção sensível e firme de Estela Renner, cujo roteiro nos leva do sublime ao terrível, sem deixar que fiquemos presas da impotência ou da idealização. Tendo gravado pais, crianças e profissionais por 400 horas, é importante ressaltar o trabalho sempre impressionante de montagem de Jordana Berg no resultado final de 97min, revelando a exuberante fotografia de Janice D’Avila.
A sensibilidade com que a equipe filmou durante horas as crianças acaba por criar um acervo de cenas preciosas e exemplares de empatia, de transitivismo, dos jogos de presença e ausência, de rivalidade, da possibilidade de escuta do outro… servindo por si só como um material sobre a primeiríssima infância para nos debruçarmos.
Já o roteiro de Renner não deixa dúvidas, a fala dos pesquisadores foi recortada de forma a insistir numa única e fundamental tecla: façamos a nossa parte enquanto coletividade, pois as perdas também são coletivas, embora venham sendo imputadas exclusivamente aos pais. Leia-se mãe.
O Começo da Vida
Ficha Técnica
Duração: 97 min
Direção: Estela Renner
Montadora: Jordana Berg
Roteiro: Estela Renner
Direção de fotografia: Janice D’Ávila
Produção: Maria Farinha Filmes, Estela Renner, Luana Lobo e Marcos Nisti
Assistente de direção: Mari Mitre
Direção de Produção: Juliana Borges
Trilha Sonora: Ed Côrtes
Argumento: Ana Lucia Villela e Estela Renner
Apresentado por: Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Bernard Van Leer Foundation, Instituto Alana e UNICEF

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