Filhos, melhor não tê-los
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VERA IACONELLI
Como disse o poetinha, melhor não tê-los. Então, porque os temos? Coloquemos de lado a obviedade, não negligenciável, de que se não tivéssemos mais filhos não estaríamos aqui para escrever estas linhas, tampouco teríamos quem as lesse. Fora a continuidade da existência humana, que já é em si uma motivação bem questionável, haja vista os rumos trumpianos que a humanidade segue, nos cabe perguntar porque os sujeitos, com suas expectativas singulares continuam a assumir esta tarefa hercúlea de conceber, gestar, parir e cuidar de outrem para todo o sempre, ou ainda, adotar e cuidar de outrem para todo o sempre.
Não existe parentalidade sem expectativas. A procriação só pode ser pensada como humana, quando sai do simples registro da disseminação da carga genética e entra no âmbito do projeto. Seja o de criar um herdeiro para o trono, seja o de ter mais mão de obra na lavoura, seja o de carregar o nome da família ou fazer companhia na velhice aos pais. Trata-se de um desejo, em sua maior parte inconsciente, que nos move e que via de regra não se relaciona com o filho que virá, mas com as projeções de sua vinda. Só a posteriori, talvez, o filho caiba nesta cama de Procusto (instrumento de tortura medieval, no qual o prisioneiro era cortado ou esticado para caber), não sem um corte aqui e um puxãozinho ali.
Tantas são as respostas, quantos sujeitos existentes e aí reside a graça e a ética da psicanálise, voltada para o sujeito no singular. No entanto, compartilhamos um caldo de cultura que nos cozinha a todos, nos atravessa. É a partir dele que respondemos singularmente, o que restringe consideravelmente o campo por um lado.
E que caldo de cultura é este? Quanto a isso, sem novidades. O curto-circuito narcisista (me, myself and I), a promessa de satisfação via consumo, o encolhimento do espaço público, o paradoxo da visibilidade no isolamento como nos diz Richard Sennett (em O declínio do homem público, 1976), a cultura de condomínio descrita por Dunker (em Mal-estar, sofrimento e sintoma, 2015), enfim, mais do mesmo, ou ainda, mais de si mesmo.
A cultura, com sua mentalidade de época, dita o que se deve oferecer e o que se deve esperar da prole.
Basicamente, hoje em dia, espera-se que sejam super investidos para que cumpram as seguintes funções impossíveis: sejam felizes, nos amem e realizem nossos sonhos mais secretos que não tivemos coragem de realizar. Mas, aqui residem alguns paradoxos (somos feitos deles, não é mesmo?).
Primeiro, o imperativo “ser feliz” que nos assola desde o séc XVIII como direito mas, acima de tudo, como dever, não faz parte da vida humana. Estar feliz momentaneamente, talvez, e mesmo assim basta uma rodada no noticiário ou um dia de consultório para termos que admitir que a vida tem tanta felicidade para nos oferecer na estante, quantos livros lidos por Trump.
Segundo, o imperativo de que nos amem. Talvez o mais pernicioso (ainda que seja difícil escolher qual dos três tem resultado mais nefasto), pois em nome de que nos amem, abrimos mão de cumprir nossa tarefa de educar, impor limites, coibir e transmitir algo da cultura que permita que os filhos se sintam parte do mundo e não donos dele (Trump de novo!?). O amor entre pais e filhos é dos mais ambivalentes por várias razões (ler Michele Behäim, sobre a ambivalência materna), entre elas, o fato de que a separação aqui se faz premente. Precisamos confrontar as escolhas dos pais para nos sentirmos sujeitos desejantes ou desistimos de desejar para não decepcioná-los. Desastre conhecido de adolescentes deprimidos, que se odeiam por não serem a imagem e semelhança do criador. Mas também de pais que “deserdam” afetivamente os filhos que não são a materialização de suas fantasias. Porque aqui se trata de um jogo de espelhos entre o que se deveria ser e o que se pode ser. O sujeito acha que
deveria ser hetero, pero…
Quanto ao terceiro, ao vê-los realizando os sonhos que não realizamos, nos damos conta de que a experiência deles não nos leva ao céu que esperávamos, pois salvo a confusão psicótica, logo percebemos que a experiência é deles e não nossa. E, que nesta altura do campeonato, provavelmente estejamos numa idade em que nossas escolhas de juventude tragam sua própria contabilidade e os arrependimentos pelo que não tivemos coragem de fazer nos alcancem. Se colhemos a frustração, quando os filhos não realizam nossos sonhos, é a inveja que colhemos quando o fazem, o que leva alguns pais à depressão, justamente quando os filhos estão no auge da vida.
Então, quando vemos os filhos sendo diferentes do que esperávamos e somos sinceros o suficiente para encarar esta decepção, talvez tenhamos como consolo o fato de que eles se recusaram a deitar na cama e fazer fama para nos satisfazer. É claro, que essa diferença só tem valor se os filhos não ficarem aprisionados numa equação de ter que ser diferentes dos pais, o que mantém os pais como referência absoluta.
E nisso reside a função parental: de se criarem sujeitos desejantes no singular e aptos a lidar com sua época.
Que os filhos desejem.
O que? Abramos mão de responder.

Ah! E por que mesmo tê-los? Pergunte aos seus botões. E a resposta pode ser muito desafiadora.

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