Educação 360 – Palestra no evento Educação 360
Prefácio para o livro “Mãe em construção” de Isabel Coutinho (Dash Editora, 2016)
10 de maio de 2016
O começo da vida
8 de julho de 2016
Museu do Amanhã: está aí um significante que me causou, quando fui convidada a falar lá, no Educação 360, pois me remeteu a articulação entre o que se herda e o campo de possibilidades que se abre a partir dessa herança.
Não seria esta a vocação da educação? Qual seja, a transmissão do conhecimento que herdamos, não como um saber dogmático, mas como um saber que engendra o novo, que abre para o desconhecido, para fora do espaço doméstico, mas também para além do agora, para o futuro.
Transmissão é um tema central no que tange à vida e engloba desde a herança genética que nos permite estar vivos aqui hoje, como também a história da humanidade igualmente representada em cada um de nós.
Sabemos da pretensão da humanidade em controlar a herança que se transmite. Se pensarmos em termos de herança genética, encontramos exemplos recorrentes da aspiração ao controle no higienismo étnico.
Seja pelo extermínio de populações inteiras, seja pela manipulação genética, a história da humanidade está repleta de exemplos de pessoas e grupos que se supõem mais humanos do que outros.
No entanto, é a própria genética que nos dá prova de termos uma herança comum que nos une irremediavelmente.
A busca pelo higienismo genético, parte do temor de nos confrontarmos com a alteridade, com o estrangeiro. O outro nos assombra, seja a mulher para o homem, seja o pobre para o rico, o homossexual para o heterossexual e, ainda, a criança para o adulto.
Tememos o estrangeiro, na impossibilidade de admitirmos que somos, antes de tudo, estrangeiros a nós mesmo, uma vez que sobre nós mesmos pouco sabemos.
Esta foi a grande contribuição de Freud, que assim como Copérnico e Darwin, deu o terceiro golpe no narcisismo humano. Nosso planeta não é o centro do universo, não somos feitos à imagem e semelhança de Deus e, Freud, por sua vez, não deixa por menos, trazendo a cereja do bolo ao dizer que o Eu consciente é apenas a ponta do iceberg do psiquismo e pior, é a parte que menos manda.
Entre nossas aspirações ao controle da alteridade, tentamos “higienizar” o que revela o mais humano em nós e, portanto, o mais valioso: nosso inconsciente, nossa singularidade. Por que? Porque tememos o que não reconhecemos em nós mesmos.
Na educação transmitimos sempre mais do que gostaríamos a nossos filhos e alunos. E as crianças são capazes de nos sacar, ali exatamente onde buscamos disfarçar de nós mesmos quem somos.
O que fazer com estes pequenos que nos devolvem as mensagens inconscientes que lhes enviamos sem que as reconheçamos, ainda que cada criança traduza estas mensagens de forma singular? Como escutá-los em seus questionamentos inquietantes?
A criança começa muito cedo a se perguntar sobre as questões mais centrais da existência, perguntar sobre sua origem e sua finitude. Estas perguntas são centrais, porque o reconhecimento de nossa origem e de nossa finitude nos define como humanos. A angústia que este reconhecimento gera move o homem a criar a arte, a ciência e a religião. Estes são alguns destinos que damos a angústia de nos sabermos mortais. Mas o paradoxo é que são estes mesmos recursos que usamos para nada saber sobre isso.
Minha filha me perguntava aos três anos, para onde tinha ido o tio recém-falecido, meu irmão. Eu também, em minha estupefação diante da morte e do luto, me perguntava: para onde foi meu irmão tão amado? Contei-lhe o que as pessoas pensavam sobre a morte e o que eu mesma pensava, ao que ela respondeu que ela ia pensar. Seria mais apaziguador para mim e para ela bancar uma fala dogmática? Talvez. Mas eu prefiro que ela siga pensando.
Não se trata só de responder à criança para que servem os números, o que é sexo ou o que são as estrelas, não se trata só de lhes dar uma versão bem-acabada dos fatos. Mas de reconhecer que ao fazê-lo, ao responder-lhes, e responder-lhes também é nossa função, transmitimos algo mais.
Quando a criança nos interroga é a questão da angústia dela que está em jogo. Então, explicar sobre a mecânica do sexo, por exemplo, tema tão debatido no âmbito escolar, não elimina a angústia que as perguntas sobre quem somos impõem. Teremos que sustentar isso, pois o contrário seria fazer calar. E o que se cala aqui, aparece como sintoma em outro lugar.
Isso é perturbador, mas igualmente promissor.
Porque a condição para seguirmos pensando é admitir que não sabemos as respostas às questões mais importantes.
Se pudermos sustentar nosso não-saber perante a criança, sem sucumbir a impotência ou a onipotência, ela terá grande chance de manter seu impulso à aprendizagem.
Pais e professores se angustiam porque acreditam que deveriam saber tudo, responder tudo (angústia a qual o mercado responde com uma enxurrada de informações, vídeos, especialistas, ritalina…), mas somos igualmente ignorantes, adultos ou crianças no que tange as mais importantes perguntas sobre nós. O que podemos ensiná-las, então?
A não recuar diante do não-saber. A continuar perguntado, a não aceitar a resposta pronta e dogmática. A fazer as perguntas certas, que convidam a pensar. A sair do binômio onipotência/impotência que nada mais é do que os dois lados da mesma moeda.
Toda criança tem o direito de saber sobre as conquistas de seu tempo, mas também tem o direito de fazer-se ouvir.
Temos que informá-las sobre os conhecimentos, mas temos que estar abertos para ouvir-lhes e aproveitar esta brecha para escutar o que nós estamos transmitindo e não sabemos. Não o que gostaríamos de transmitir, mas o que transmitimos sem saber: o sexo, a vida, a alteridade, a morte.
A casa é o primeiro circuito na qual a criança receberá os ditames da cultura, filtrados pela experiência singular daqueles que dela cuidam. Um pai, uma mãe, dois pais, duas mães, uma avó, as famílias acolhedoras… aqui não há a priori. Todos os cuidadores que façam jus ao nome “cuidador” são bem-vindos.
Tubo de ensaio, mas acima de tudo, plataforma de lançamento, a casa, como chamarei aqui esta miríade de possibilidades de cuidados no início, é, por sua vez, sustentada pela comunidade da qual faz parte. A criança herda isto também: o lugar dos pais e cuidadoresna sociedade, ela herda.
Ela será o décimo filho de pobres irresponsáveis ou o herdeiro de Caras mesmo antes de nascer. Quem trabalha com a população carente sabe como a parentalidade pode ser encarada como privilégio e não direito. Transmitimos isto também. E elas nos perguntarão sobre isso. A questão é o que faremos com isto que retorna delas como pergunta, como desafio, como sintoma.
Entre a casa e a comunidade, com sorte teremos a escola. Lugar onde a transmissão aponta para o que é público, condição para o melhor exercício da cidadania no espaço coletivo. Lugar de virada, com potencial de oferecer uma alternativa para o mundo privado, relativizá-lo, evitando que a transmissão se encerre em si mesma, evitando que sucumba aos valores domésticos, ou que perpetue o lugar herdado dos pais. A escola, quando cumpre sua função, transmite a herança cultural ao mesmo tempo em que recolhe dos alunos suas preciosas perguntas e inquietações, não para fazê-los calar, mas para relançá-los para que continuem perguntando e buscando novas soluções, sempre parciais.
É importante para isso que reconheçamos que o ensino, enquanto conteúdo, é anacrônico de saída. É importante que tenhamos isso em mente ao educar.
Por exemplo: Quem descobriu o Brasil? Pedro Álvares Cabral, e “aí” de quem respondesse outra coisa na minha infância. Hoje, essa pergunta não cabe mais, uma vez que não há como “descobrir” um país habitado por povos há milênios.
Outros exemplos: ensinamos a nossos filhos a escrever? Ensinamos que existem dois gêneros? Que açúcar é inofensivo? Isso valia há algumas décadas. Mas passado tão pouco tempo, não escrevemos mais, teclamos; existem tanto gêneros quanto sujeitos (na França são declarados mais de 70 gêneros) e o açúcar, bem, o açúcar nós comemos escondido, como drogaditos. Alguma dúvida de que a maior parte de nossos ensinamentos de hoje se tornará anacrônica amanhã?
Mas temos que transmitir os conteúdos vigentes, não há questão quanto a isso. E isso é bom. Desde que o campo das possibilidades se mantenha aberto. Desde que o museu seja do amanhã.
Permeando todos os laços sociais temos a comunidade que deverá sustentar as esferas anteriores e estar apta a receber o fruto destas primeiras inserções no mundo: a criança. A casa e a escola emergem dos arranjos da coletividade e não prescindem de suas determinações. O que transmitimos às crianças sobre isso? Primeiramente o fato de que não temos conseguido mais pensar em termos coletivos. Já soubemos fazê-lo, haja vista os grupos sociais que ainda hoje funcionam de forma coletiva, nas sociedades estáveis. Nestes grupos o futuro é a tradição, mas não há sujeitos desassistidos a princípio. No entanto, escolhemos outro rumo que privilegiou irremediavelmente o individualismo. Nosso futuro é o novo, sendo a tradição desprestigiada. Arcamos com o ônus e o bônus desta escolha. Não cabe saudosismos aqui, nem juízos de valor, mas o reconhecimento dos desafios que esta escolha nos impõem. Resta o desafio, então de, preservando nossa individualidade e, ainda, nossa singularidade (duplo desafio, uma vez que não se trata da mesma coisa), resta o desafio de propor soluções que abarquem a coletividade. Soluções pensadas a partir e para a comunidade.
A casa e a escola não têm como ser unicamente responsabilizadas pelos efeitos da transmissão, num verdadeiro jogo de “batata quente”, sem que as políticas públicas de saúde e de educação estejam implicadas. Sem que se leve em conta, ainda, que cada criança terá uma forma singular de traduzir a transmissão.
Então, ao educar, ao transmitir os valores, as regras e os conhecimentos acumulados por nossa cultura, ao inserirmos a criança no mundo a partir destes círculos concêntricos de proteção que deveriam ser a casa, a escola e a comunidade lembremos que transmitimos algo mais, um resto. E lembremos, principalmente, da forma como lidamos com este resto em nós mesmos.
As crianças apontam para o estrangeiro em nós, por isso elas podem ser renovadoras ou assustadoras, amadas ou negligenciadas. Lidar com a infância e com o que ela nos transmite será sempre o grande desafio de qualquer época, pois é a condição de nosso devir.
Sem fazer spoiler, gostaria de comentar um trecho primoroso da direção da Estela Renner no documentário O começo da vida, do qual tive o prazer de participar. Trecho no qual aparecem duas mulheres em pontos opostos da pirâmide social do nosso país. Uma top model internacional e uma moça que vive em situação de penúria social, as duas falam exatamente a mesma coisa sobre o que desejam para seus filhos: desejam poder escutá-los. Oxalá tivéssemos todos o mesmo desejo. Se pudermos escutá-los, com sorte aprenderemos algo sobre eles e, principalmente, sobre nós.
Outra cena que me será para sempre inesquecível e logo vocês a reconhecerão e saberão porque, é a resposta de uma criança sobre seus sonhos. Ela responde que não tem sonhos. Vejamos se conseguimos escutá-la.
Educar não se trata de desejar que a criança seja isso ou aquilo, mas de desejar que ela possa continuar desejando.
Vera Iaconelli

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