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DESAFIOS DE SER MÃE HOJE, O QUE NÓS PSIS TEMOS A VER COM ISTO?
Roberta Kehdy*

Vivemos em uma época de grande idealização da maternidade e de grande expectativa de sucesso. Acompanhamos, também, mudanças culturais que desvalorizam os saberes tradicionais e supervalorizam as novidades e tecnologias,  diluindo o amparo social que as mulheres costumavam ter, no passado, durante o período gravídico-puerperal. O aleitamento e os cuidados aos bebês que as mulheres aprendiam em casa com suas mães e parentes, no convívio com a família estendida, deixaram de ser adquiridos através de transmissão oral e compartilhada. Para muitas mulheres, seus filhos são os primeiros bebês que pegam nos braços para cuidar e frequentemente se vem sozinhas, distante das famílias de origem. O que fazer diante da falta de referências? Qual o papel dos profissionais da psicologia (psis) no acompanhamento desta etapa?
O ciclo perinatal** é um período de grandes transformações na vida das mulheres, inicia-se com uma tremenda transformação corporal e segue provocando questionamentos em diversos outros aspectos da vida: valores, prioridades, sentimentos.  Podemos considerá-lo como um verdadeiro redemoinho que tira a mulher de seu eixo e possibilita um novo posicionamento diante da vida.
Abordamos estas questões a partir da psicanálise que considera a importância da história e da experiência singular de cada sujeito,  cada gestação é experimentada pela mulher de maneira única e com radicalidade. Assim, não existe A mulher grávida,
Tornar-se mãe reaviva desejos antigos, experimentados na infância face aos próprios pais, outrora vividos como adultos todo-poderosos. Há uma atualização do conflito edípico que faz todo projeto de filho possuir um caráter ambivalente e contraditório.
A maternidade implica, também, em tomar lugar na cadeia de gerações, após seus pais, antes de seus filhos, fato que reafirma o caráter finito da vida e o acesso à maturidade. A passagem do tempo se impõe de forma abrupta, nos colocando diante do inevitável desaparecimento futuro.
Esse processo é bastante complexo e desafia a mulher a elaborar vários lutos: o do lugar de filha, o do corpo anterior, a da passagem do casal para a tríade, quando se trata da primeira gravidez. Ele impõe uma dupla tarefa à mulher e ao laço social: a constituição de uma nova posição subjetiva (sua gestação como mãe) – e a relação deste novo lugar com a função materna – sua tarefa de gerar um outro sujeito humano, possibilitando a constituição do psiquismo do bebê.
Para desempenhar esta nova e importante função, a mãe precisa da sustentação do ambiente que se estende desde a rede de apoio mais próxima até o contexto sócio-cultural mais amplo. Atualmente, que condições de suporte temos oferecido às mulheres nesta passagem tão significativa?
A grande idealização da maternidade e as mudanças culturais elencadas no início deste texto intensificam a solidão e levam muitas mães a se sentirem hoje, bastante despreparadas para lidar com os desafios que a maternidade apresenta. Com a valorização exacerbada da novidade científica, várias mulheres vão buscar informações em livros ou com especialistas, onde o cuidado, muitas vezes é apresentado como técnicas a serem adquiridas o que pode deixá-las ainda mais desamparadas.
Como vimos, a perinatalidade vai muito além da experiência instintiva e corporal, possibilitando à mulher um encontro íntimo consigo mesma, sua história, suas relações. O que torna este momento, por um lado, privilegiado para intervenção terapêutica e, por outro, exige extremo cuidado e atenção. A plasticidade psíquica existente favorece o estabelecimento de uma aliança terapêutica com o narcisismo materno, facilitando a circulação das palavras e a emergência de fantasmas potencialmente patogênicos para a relação mãe e bebê que, em outras circunstâncias, permaneceriam adormecidos.
Contudo é importante ressaltar que exatamente por esta sensibilidade psíquica, as palavras ditas neste período tem peso considerável e podem deixar marcas importantes no imaginário materno e impactar as primeiras identificações do bebê, principalmente as proferidas pelas pessoas significativas, incluídos aí os profissionais de saúde, que vem de encontro aos desejos inconscientes da mãe.
Percebemos então como é importante a maneira como os profissionais que se propõe a cuidar de mulheres na perinatalidade se posicionam e se dirigem a elas. Nós, psis, temos que estar atentos para não cedermos ao ímpeto normativo facilmente despertado pelo desamparo presente nesta etapa. Temos uma responsabilidade não só junto aos pais, mas também frente aos diversos profissionais da saúde.
Nossa escuta vai na direção oposta à fala do especialista*** que pode se tornar um obstáculo em potencial para que a mãe possa encontrar a sua maneira singular de maternar seu bebê. Alarmar a mãe com o intuito de torná-la mais competente, comportamento bastante comum em uma equipe de saúde, acaba levando-a a fazer tudo pior do que fazia, uma vez que a ansiedade gerada por tais orientações apenas prejudica a identificação materna. Consideramos que não existe um único jeito de cuidar, muito mais que uma técnica, a constituição do bebê como um sujeito se dá pela possibilidade de investimento libidinal do cuidador, sendo este o detentor do saber sobre o bebê que está sob seus cuidados.

* Roberta Kehdy: Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae onde é supervisora do curso Psicopatologia Psicanalítica e clínica contemporânea e Professora e Coordenadora da Clínica social do Instituto Gerar

** Perinatalidade é, como proposto por Iaconelli (2012), a “acepção mais ampla, que não se restringe ao evento imediato do parto, mas o inclui, assim como as etapas que o antecedem e o ultrapassam relativas à gestação e ao puerpério.”

*** Fala do especialista- aqui considerada como uma fala normativa e técnica que ao invés de possibilitar que os pais encontrem a sua forma de cuidar , os desautoriza.

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